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Lições sobre ingenuidade e carater - bullying

Meu querido Hugo,

Quando comecei esse post, ontem ou anteontem, você estava com papai tocando violão na sala e eu no escritório querendo registrar algo sobre minha vida - infância e adolescência - que pode lhe ser útil.

Estamos em casa desde o dia 17 de março de 2020 devido à pandemia do coronavírus. Somos eu, você, papai e vovó Fafá neste apartamento o tempo todinho. Mas sabe, está muito bom pra gente, pois vovó é aposentada e mamãe e papai tem empregos públicos estáveis. Papai continua orientando os alunos, mas não está dando aula (pelo menos não ainda) e mamãe está trabalhando também, com metas. Para muita gente, a situação não está fácil. Tento ajudar contribuindo com campanhas online, e oferecendo apoio a pessoas que nos prestavam serviços que não podem entregar agora. Tivemos muita sorte, viu. A situação poderia ser muito diferente, como está sendo para tanta gente. O isolamento em si não nos incomoda - de que outra forma estaríamos com você por todo o dia, todos os dias!? Provavelmente isso nunca se repetirá. E que bom que foi nesta fase sua, de desenvolvimento tão rápido e tão especial.

Você está crescendo e aprendendo tanto! Toca sempre a bateria, já conhece pelo nome os tambores e pratos, já reconhece seus sons. Tem vídeo de você apresentando a bateria. Quando você assiste a filmes (e isso já tem tempo), você fala os instrumentos que estão tocando na música de fundo. Ontem mesmo, ouviu uma gaita e falou: tem uma gaita! Tão observador! Meu Deus! Você também já conhece todas as letras, e está falando palavras e frases curtas em inglês. Papai tem falado apenas em inglês com você, e colocado músicas educativas do "Super Simple Songs". Você já canta e dança algumas. Acho que as favoritas são "Bingo" e "Itsi Bitsi Spider" (com Carly Simon cantando inclusive).

Então... Sobre a lição que queria relatar...
Nesta situação de isolamento, estou aproveitando para investir um pouco no meu autoconhecimento. Isso também tem a ver com a  minha necessidade de amadurecer a personagem de meu livro que irá me "representar". Preciso compreender coisas que se passaram em minha vida para poder tratá-las da melhor forma na história. Então ontem resolvi ligar para Carol (Kerols) Garcia, minha amiga do ensino médio. Eu precisava ver pelos olhos de outra pessoa o fato de eu ter sofrido bullying até o último ano, inclusive quando me chamaram ao palco no festival de bandas, quando toquei com seu pai e nossa banda Borage diante de toda a escola. Foi sucesso! Mas tive que aturar me anunciarem ao palco por Armandinha. Pelo menos omitiram o "sobrenome". Ufa!
"Bullying emocional é quando você manipula alguém para seu próprio ganho, fazendo essa pessoa sentir vergonha ou tirando poder e confiança dela."
Meu apelido no terceiro ano (último ano antes do vestibular) era Armandinha Cagona. Armandinha porque diziam que eu fazia piadas sem graça assim como o professor de química, Armando. (Hoje eu penso: Opa! Fui uma jovem mulher com senso de humor. Isso talvez não fosse permitido. Bom, não era bem aceito. Que coisa, né? Se fossem os meninos abestalhados fazendo as mesmas tiradas, seria engraçado certamente.) Bom, e cagona, o apelido que mais me machucava, era devido à minha desculpa esfarrapada para filar aulas chatas. Minha mãe me deixava muito a vontade e confiava no meu julgamento para avaliar o custo-benefício de cada aula. As aulas de inglês da professora Cleide eram as piores para mim. A professora era extremamente estúpida. E inglês deveria ser muito mais autodidata+prática. A verdade é que, assim como a minha personagem, eu não me adapto muito bem a lugares fechados com ar viciado. Então eu ficava para ver o assunto da aula, e ia tolerando, até que a professora soltasse algum veneno pela boca e eu perdesse minha boa vontade. Pedia licença - "preciso ir ao banheiro", para mostrar algum respeito, pois não ia dizer a verdade -, levantava e saia. Geralmente ia para o outro prédio, das crianças pequenas, onde ficava a biblioteca, pegava um violão e ficava tocando em algum canto isolado. A bibliotecária já sabia: "Aula de inglês, né?"

Depois que isso foi se tornando um padrão, surgiu o apelido. E um grupo de meninos passou a parar a aula para gritar "cagona" em alvoroço enquanto eu me dirigia à porta. Isso me machucava, mas eu seguia, fingindo não ligar. Valia a pena. Dou imenso valor à minha liberdade. Não era essa abestalhação que iria me impedir de fazer o que minha alma estava pedindo.

Lembro bem do dia que parece ter sido o auge e meio que o fim desse bullying. Já estávamos no final do último ano. Logo faríamos o vestibular. Muitos dos alunos já tinham completado a maior idade. Eu sempre fui das mais novas da turma, só fui completar 18 anos na faculdade. Pois neste dia, como muitos outros, levantei e fui em direção à porta. Nunca houve alvoroço maior. E enquanto passava entre as filas de carteiras escolares, em meio àquele barulho desagradável de vozes masculinas, fui constatando como aquelas pessoas, homens feitos, alguns almejando se tornarem médicos, pilotos de avião, engenheiros, advogados... como aquelas figuras patéticas se prestavam a esse papel tão infantil e desrespeitoso comigo e, pior, com os professores?! Cada passo que eu dava, aquele pensamento se tornava mais claro. Que absurdo! Que criação esses meninos tiveram? Será que viam, em suas casas, seus pais tratarem suas mães com desrespeito também? Estariam reproduzindo, exacerbadamente algo que pudera lhes incomodar profundamente na rotina oculta de suas casas? Um menino bem amado e cuidado, que fizesse parte de uma família saudável, com pais educados, certamente não teriam tal comportamento. Senti pena. Mas, ao alcançar a porta e virar girar a maçaneta, virei-me. Ri. Ri chateada, pela parte que me atingia. Eu realmente preferia não receber esse tipo de atenção. Mas ri do ridículo. Que homens ridículos estariam se tornando esses meninos mal criados. Coitados. E meu riso os levou à loucura. Uma onda de uivos e gritos os tomou, parecendo algo incontrolável. Deviam ser uns cinco, mas que contaminavam os outros a rirem ou sei lá o que, e esculhambavam o clima de toda a sala. Fechei a porta com aquela imagem gravada na minha mente. Como podemos ser tão estúpidos e ridículos ao mesmo tempo?

Bom... Quero lhe dizer, meu filho, que eu - que sofri bullying a minha vida toda e filei aulas categoricamente no último ano da escola - passei em todos os vestibulares que fiz nas primeira colocações. Foi graças a sua vó Fafá, que era estudiosíssima e muito inteligente. Ela fazia as provas dos vestibulares dos anos anteriores comigo, vendo o que faltava de conteúdo e me ajudando a compreender as malícias das questões e como resolvê-las. Ela também treinou questões abertas de matemática e física comigo, o que me fez fechar as provas abertas da segunda etapa e pular várias colocações, me deixando em 9º na UNEB e 13º na UFBA.

A menina que sofreu bullying a vida toda, por ter cabelão cheio (Bruxa, aos 7-8 anos), por ter ficado cheinha quando foi virando moça (Butano e Gorda Lerda, aos 9-10 anos*) etc... Essa menina namorou intensamente, casou apaixonadamente com um homem maravilhoso, se formou e fez mestrado com desempenhos ótimos, foi professora amada que fez boas contribuições para a profissão e vida de estudantes de arquitetura, passou em concurso público para um emprego legalzinho, e agora é mãe de um menino formidável. Então, meu filho, apesar de as crianças serem as vezes cruéis (e os adultos também são, mais disfaçadamente), a gente consegue sintonizar com quem é do bem e fazer nossas vidinhas serem plenas, lindas e significativas.

Não suficiente, eu ainda me sinto, eventualmente, aquela menina digna de rejeição social. As vezes, por ser gordinha ou simplesmente por carregar algumas inseguranças de forma tão profunda, acho que não mereço tudo que conquistei - seu pai maravilhoso, inclusive.

Enfim... Liguei para minha amiga Kerols. (Foi Kerols, por sinal, que primeiro percebeu Rodrigo e comentou "Que gatinho!", ao que mamãe respondeu "Não faz meu tipo", achando que ele seria metido por ser bonitinho demais.) Perguntei a ela, pelo telefone, por que ela achava que faziam bullying comigo. Ela disse que a visão dela é que eu fazia algo que todo mundo tinha vontade de fazer e não tinha coragem, e isso incomodava. Que talvez porque minha mãe me amparasse e comprendesse, eu parecia fazer isso com muita consciência e segurança, de forma pensada, tranquila. E não ligava para o que os outros iriam pensar. Que isso devia incomodar também. Outras palavras que ela falou, como inteligente e segura, me ajudaram a processar esse evento de outra forma. Ela lembrou que uma vez filou comigo, e que para ela foi um dia muito especial. Ficamos tocando violão, ela lembrou.

Então com isso, pude reconstruir a minha própria personagem. Reconstrui em minha mente aqueles momentos, sob essa nova perspectiva. Que linda que fui! Minha heroína, eu mesma. Que delícia! :D

Espero que essa história possa compor todo seu acervo que lhe fará um menino muito bacana, um homem maravilhoso!

Te amo muito, meu filho!
(Você acabou de acordar da soneca da tarde e está brincando com vovó Fafá. 11/05/2020 16:21h)

Links (tomara que ainda existam quando você for grande o suficiente para ler isso):

https://pt.wikihow.com/Parar-de-Sofrer-Bullying
https://pt.wikihow.com/Parar-de-Praticar-Bullying
https://pt.wikihow.com/Agir-Quando-Algu%C3%A9m-Provoca-Voc%C3%AA

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